quarta-feira, 17 de outubro de 2007

QUANDO SE TEM TUDO E SÓ LHE FALTA A VIDA


- Papai! - gritou o garoto - Quero fazer uma pipa para empinar com meus amigos!
- Amigos? - interrogou o pai - Esses garotos não são amigos, são gente má, são garotos maltrapilhos, falam palavrão, riem alto, não tem educação...
- Mas pai... Eu consegui o bambú, o plástico e a linha...
- Mas o que? Você podia fazer outra coisa, empinar pipa é perigoso, e fazer uma causa uma sujeira só no quintal de casa! Porque você não vai jogar vídeo-game? Porque não vai brincar com seus outros brinquedos? Tem que ser logo "pipa"?
- Mas pai...!?
- Não... Vai fazer outra coisa - disse o pai já saindo sem querer ouvir mais nada.
O garoto tinha o sonho que era seu. Tinha também condição de realizar seu sonho, afinal, esse ele mesmo adquiriu. O vento estava à sua espera lá fora... O dia estava sorrindo com um Sol radiante sem nenhuma sombra de chuva... Seus amigos estavam lá, felizes, sorrindo, se divertindo, se deliciando com a vida e sua simplicidade, alguns deles nem tinham o que o garoto tinha, mas estavam lá, felizes em viver, em estar lá fora, na vida. O garoto tinha tudo, só lhe faltava a Vida.

Assim tem sido a religião. Castradora dos sonhos, amestradora dos desejos, a própria negação da vida. Ela cria seus quintais para manter os "seus" lá dentro, negando a vida lá fora, mesmo que se tenha tudo para a vida, e ainda se diz "pastor" ou "pai-stor" os que isso fazem.

"Lá dentro" é o lugar da prisão e da falsa segurança. É o lugar onde se tenta livrar dos "perigos" lá fora, da "sujeira" que poderia causar se as pessoas começassem a querer ter sonhos demais. É o lugar onde se diz ter vida de verdade, ter sonhos de verdade, pessoas de verdade, músicas de verdade, diversão de verdade... Mas lá dentro só há pavor da vida, que acontece livre lá fora e está posta como banquete para quem quer se deliciar nela. A religião faz com que o "Lá dentro" adentre o ser de modo que dentro do ser passa a ser seu lugar de hospedagem, e o "Lá dentro" já fica enraizado na alma do indivíduo que um dia teve sonhos mas agora não os tem mais; que um dia teve vontade de sair para a vida e agora não os tem mais; que um dia teve a vontade de sair para a simplicidade da vida mas hoje não a tem mais.

E o pior de tudo é que o ser já amestrado e castrado vive como quem, alienamente, está feliz. Já não tem desejos, nem vontades próprias, não tem sonhos, não tem vida nem vontade de viver, pois pensa estar por sí mesmo vivendo o paraíso dentro das paredes que lhe foram imputadas, sem enxergar que seus membros, os quais Deus o deu para a vida, foram mutilados, por isso a razão de não se ter mais o grito que clama pela vida dentro do ser. Tudo o que é vida o foi ensinado como sendo morte, tudo o que é morte foi-lhe ensinado como sendo vida, e o ser vive em eterno engano. Prova a morte pensando ter sabor de vida, mas seus sentidos já estão embotados para que perceba tal sabor; prova a prisão como sendo liberdade, pois, suas asas já foram cortadas para não sentir a liberdade de alçar vôos para bem longe; prova o inferno como sendo o céu, e o Diabo como sendo Deus. Como diz um amigo em espírito: prova urina numa garrafa de Balantines pensando ser Wisk (Caio Fábio).

Deus deu tudo para que se tenha vida, e criou a vida para que nela se viva em abundância, pois a Vida e a vida provém Dele.

Nele, em quem sonhos e liberdade jamais serão castrados nem mutilados, pois tudo isso também vem Dele.

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