quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

DRUMMOND SEM TRIUNFOS




Chega um tempo em que só se diz "meu Deus"
Tempo de inabissoluta depuração
Tempo em que se diz "meu amor"
Pois o amor se tornou útil
E os olhos choram
E às mãos não se dão o feliz trabalho
E o coração está encharcado

As mulheres batem à porta, abrirás
Não ficas sozinho, a luz está bem acessa
Na claridade teus olhos
Escurecem entreabertos
És todo incerteza, só sabes sofrer
Esperas teus amigos...

A velhice, o pai já velho, a doença sem cura
Teus ombros não suportam mais nada
Bastaria a mão de uma criança
As guerras, fomes, as discussões dentro dos edifícios
Provam uma inocente indiferença
E nem todos se diferem
Alguns achando bárbaro o espetáculo
Prefeririam (não se os sabe) encontrar algum fôlego
Chegou um tempo em que a morte é uma ordem
A morte apenas, e suas mistificações

segunda-feira, 24 de março de 2014

CARNE DA MINHA CARNE



sedutora



Meu desejo por ti fala mais alto
Anuncia-se gritando de cima de um telhado
Espalhando por todo canto o que em meu corpo inteiro anda espalhado
Sem segredos te deseja, e te deseja de fato
Meu desejo por ti destila-se numa briga contra o amor
Escorre em desejo e nesse ensejo te quer toda e inteira
Quer as delícias do teu corpo, quer os teus gemidos de prazer
Meu desejo por ti deseja a ti somente
O teu cheiro e não de algum perfume francês
Teu cheiro e tua pele
Teu suor e aquilo que não sei dizer
E aquele papo de amor malbaratado
Que dê espaço para o desejo que me causas
A minha carne te quer
Essa minha vontade de ti
De me-ter entre tuas pernas
Enroscado em tuas forças
Em tuas coxas
Meu desejo te deseja da cabeça aos pés
Por entre meus dedos os teus cabelos
E o teu seio em minha mão
Ir mais fundo em ti esse desejo em mim quer
Adentrando tuas partes
Sem amor: com toda minha vontade
Quero teus lábios, todos
Tuas poses e tudo o mais
Teus gemidos e pedidos
Quero o teu desejo
Pela frente ou por detrás
Quero tua viscosidade alegre e safada
Quero a puta que se insinua
Mas não quero a puta que dá por dinheiro
Essa dá por amor, ao dinheiro
Não quero amor! Por favor!
Quero a puta que ama dar, e só isso
E se não fosses safada nem mesmo a quereria
Quero os teus passos desfilantes
Cadenciados, delirantes
Roupa íntima no máximo
Teu rebolado atraente
Teus olhares assanhados
Quero o vinho ao sabor do tom maldoso de tuas curvas
Quero tudo o que essa maldade me provoca
Quero que venhas com vontade
Não quero amor
Quero você mesma
Esse amor que parece sempre ser um terceiro na relação
Mas eu quero a dois
Amor é brincadeira
E a única brincadeira que quero
É divertir-me no teu corpo nu
Beijar-te os seios querendo tudo
Quero teu umbigo como taça para uma bebida bem forte
Mas beber apenas o que dele escorrer
Ter a língua seguindo o caminho por onde a bebida escolher
Quero-te na posição de uma fêmea, e não de uma mulher
Quero teus instintos e nada de tua donzelice amestrada
Nada de tua fraca farsa recatada
Quero o teu gozo e o teu gemido estridente
Seja meio que reprimido, por entre os dentes
Ou gritado, ou gemido
O que não quero é teu silêncio dissimulado
Tua castidade santarrona
Quero-te a ti
E não me venhas com outra

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

QUE É MEU SÓ SENDO TEU

 

abraco2

 

Sim! Tiras-me o que é teu!

E eu que nem te tenho, egoico te peço

Mas sem querer nada (Que tamanha desgraça!)

Que devolva-te!

Essa estupidez que me assola

Digo-me que essas coisas já são coisas minhas

É melhor não conhecer o amor sem ter certeza de que dele quer encher o teu vazio

Não! Nenhum sábio disse isso, senão um!

Pelo menos apenas um pensou naqueles, no mínimo, sete demônios meus

Que se vão quando chegas e sempre trazem na tua ausência outros sete seus

Se de perdão me alimentasse o teu amor

Setenta vezes sete por dia

Então jamais deixarias essa casa sombria e vazia

E é ai que a incoerência do amor urge e grita

Que me deixas tão livre que me sinto preso

Preso a estes, no mínimo, sete demônios: o tempo e espaço, a angústia, o desespero, a possibilidade da liberdade, o medo, o castigo e o nada.

Se é o amor que liberta

O que mais poderia sentir quando não estás me amando?

Escravo! E o que me prende?

A ideia de que tu tiras essa angústia que sou para dançar

E tu és toda alegria, e outra coisa não podes ser

Devolves-me a mim quando me lembras a mim de mim mesmo

Quando me abraças por inteiro

Todas as minhas partes

Sem de nenhuma delas se escandalizar

Tiras-me de mim quando de mim nada tiras

Quando me convidas todo para a tua alegria

E que quer ser também a minha senão não o seria

Tiras-me de mim quando de mim nada tiras

e me abraças por inteiro cobrindo minhas vergonhas

Não que tenhas poder para perdoar pecados! Não é isso!

É que me olhas com esses olhares

E enxergando-me mantém a graça

Ao meu redor os teus braços

E trazes-te a mim

E oferece-me tuas mãos

Para tocarem as minhas

MEU AMOR, ERA PROIBIDO!

 

desejo

 

 

Cuidas pouco de mim

Perdoe-me! Não que quisesses que fosse assim!

Quisera eu que fosse como quando é

Quando me atende com teus olhares

E transcendes a minha carne

E transformas cada pedaço em símbolos

Cada membro em mistérios

Mistérios teus, queira Deus os poder suportar

Pois há de se falar naquele amor a si mesmo

Que quando aos seus olhos encontram a grandiosa beleza

Encontra senão a beleza que de si projeta

Ama a si mesmo quando num ludibrio diz amar ao outro

Ah! Estremeço só de saber que pode ser assim!

Que queres atear os teus fogos em mim

E não sei se quando a mesa virar se vais gostar do que enxergar

Quisera eu que fosse como quando é

Quando teus braços me acenam discretamente

Como num sussurro que não diz

Mas que não se pode deixar ignorado o que se tem a dizer

Vai que gostastes mesmo de mim!

Vai que dilatastes a alma, perdestes a calma

E renunciastes a euforia

Vai que me dizes mesmo o que pensas

Sem se deixar enganar pelas fantasias dos versos que lestes

Dos ideais que escrevestes em profundas e inalcançáveis linhas

Vai que deixastes ser minha só porque a si mesmo possuístes

E aprendestes a doar-se de nada carecendo

E nos teus olhares me falastes que amou o assombro

De enxergar tão para longe de si o outro

O outro que sou eu

Que não sei se conhecestes ainda meu nome

Ou se sabes mesmo o linguajar meu

Se sabes porquê gosto ou desgosto

Porquê sou seu e porquê sou meu

Mas o que aqui digo é que cuidas muito pouco de mim

Quando me olhas assim e parte como se não fizesses parte

Como se não fizesses parte de mim

E eu de você? Seria algo também assim?

Partes de mim como a mãe deixa a criança sem saber

Como será o universo dela, tão pequeno, dali em diante

Parte de mim, aquela parte em que cabem todos os sentimentos

Cabem a razão, a não razão, o amor, a paixão...

Qual será maior a partida

Quando partes e parte tudo o que fica por aqui?

Qual será o maior então afinal se tudo isso que se diz ser maior

Cabe num recipiente tal?

A confusão é tanta que não há que se não render

Que maior é o amor que tudo sustenta

Ele sim suporta que o abandones quando vais embora

Mas sou muito menor que o amor

E se me amaste no que se de mim viu

Então também sou menor que tu

É isso que me trazes em tamanha iminência

A desgraça minha desse amor com que me amas

Não que sejas eu o teu predileto

(Esse engano guardo só pra mim!)
É a cadência do amor não tão quieto

Intranquilo

Tanto que me pego descansando em ti!

Se com esses versos ainda não enxergastes

Permita-me ainda prosseguir àquela rua escura

E a solidão é dura quando estás tão longe e tão perto assim

Que isso nem seja chamado de solidão, e que nem mesmo seja

Não é o que o verso diz

É o que me tiras de mim: teus sorrisos, tuas carícias, tuas palavras...
Não me destes nada nem nada me prometestes

Nem mesmo os teus sorrisos, tuas carícias, e as tuas palavras...

Não que eu possa sentir isso, por causa desses castos moralistas

Que têm tudo numa pequena lista

De como que se deve e não existir

A isso dão o nome de loucura

De tudo isso devo pedir perdão, devo me arrepender

Para conservar minha alma pura

Mas perdoem-me a discordância

É que há uma distância entre o que se compreende

E o que se quer de mim compreender

Que o proibido é o inserido

Por estes que nem sequer com um dedo

Podem aproximar aquilo que aconselham

Do que tornam a fazer

É que o teu carinho, o teu afago

São obras da carne ou do Diabo

Se assim é, que belo inferno o que vivo

Onde um feito de amor não é proibido

As delícias das carícias não carregam o conteúdo do perverso

E o deleite um no outro não é egoísta

Não defendo o amor, ele que defenda a si mesmo

Desses que insistem em acusá-lo

De ter nascido ou brotado

Esses que se sentem puros

Que nunca foram amados para além do mandamento amargo

Nunca viram doçura

Veja que bobagem a minha

Já me levantando contra tal tirania

A do covarde e a da covardia

Mas se tu estivesses aqui

Não estarias pensando nada disso

Estaria enredado por outra esfera

Aquela em que quando entro

Faz pensar aos outros tudo quanto é vil

E quem me viu com ela

Escandalizou-se, ou irritou-se

Com essa paixão que sempre ouviram falar

Que chega de assalto, sem avisar

E que nunca bateu às portas deles

Mas quero deixar bem claro

E isso nem é raro

Posto que claramente deixo estar todas as coisas

Sempre quando quis faltar à escola

A verdade que dissera a meus pais fora a minha esmola

Para quem quisesse um dia me acusar

Nunca fui de inventar notícias

Nem de esconder comportamentos

E também nunca me senti obrigado

A falar sobre nenhum deles

Quando me mantive calado

Calado quis estar e dizer algo não podia

Meu amor era proibido

Era proibido, meu amor!

Era proibido!

EM PARTE E POR INTEIRO

 

fumar

 

Que vontade de escrever um poema

Mas não tenho ninguém a quem escrever

Nem você que lê, que eu mesmo nem conheço

De repente uma me diz: “Escreva para mim”!

Ah não! Você de novo, o tempo todo

E depois que na minha arte

Fiz você deixar de fazer parte

Fiz qualquer parte, de qualquer coisa,

ser essa parte que te pertencia

Sim! Sei da lição

Dois corpos, um mesmo lugar...

Mas não me interessa a impossibilidade

E se o tempo todo aprendi a me alegrar?

Mesmo como você aí!

Talvez agora mesmo, como num instante

Entendi, talvez a arte do infeliz

De se achar infeliz quando longe da amada se alegra

Porém, que tu nunca esquecestes

Ou afastastes de si

Meu eu, sou eu, sou teu

Só, somente acompanhado

Por si mesmo

E não sei

Tua companhia é presente

Como nada mais o poderá ser

MENINA QUE ANDA SOLTA PELA RUA

 

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Menina que anda solta pela rua

Vestido de menina, sorriso de menina

Uma leveza também de menina

E dizes tantas coisas e são palavras tão frágeis

Como os de uma menina

Inevitável não te reconhecer mulher, claro

Mas é que não falo disso

De suas belas e macias curvas

De seus traços delicados

Falo da que me fala de si mesma

E por mais assustador que seja

Transcende ainda mais sobre isso tua beleza

Uma contradição frágil

Quem nunca ouviu esse conto antes?

A menina perdida e o herói feito da oportunidade

Da oportunidade de acolher

Ela, frágil, ele, querendo proteger

E enquanto falavas, nem de certo sei

Se eram nas palavras que estava afim

E desde já me perdoe

Por minhas seguidas contradições

É que observava as palavras escritas em ti

Na expressão do teu corpo

Dos teus membros

Em cada curva dos teus olhos

Em cada gesto de teus lábios

Um jeito de cruzar as pernas

E outro jeito de descruzá-las

Todos os traços entre um silêncio calmo

E outro cheio de ansiedade

Todos os pedidos contidos e incontidos

Uns quase que não ditos

Outros gritados dos telhados

Toda a tua pele tem um tom elevado

Elevado para quem se atreve descrevê-lo

Mas eis o fantástico do corpo

Que permite pelo tato dizê-lo

E não pense que teus calafrios e calores nada me disseram

O aquecer e o esfriar de tua pele mostraram-me tua verdadeira linguagem

Ela me diz quando acreditar ou não em ti

Na menina que carrega o mais belo signo em si

O de ser menina, um jeito menina de ser assim

E há de se conhecer também o teu demônio

Esse teu jeito de menina

Que faz crer que tens a chave que abre todas as portas

A da alegria: leveza e brilho dos tempos de criança

É assim que encantas quando passas pelas ruas bailando em sorrisos

É assim que atrai os olhares vorazes e vampirescos

Que desejam esse teu vigor

Também és desejo daqueles que sonham e poetizam

Resumes em ti mesma o instante da filosofia

Um momento de eternidade no temporal

Contudo, te tornas num instante contínuo

Transcendes a esse instante finito

E é quase necessário cantar um hino

À beleza de tua teofania 

Mas diga-me com toda sinceridade, menina!

Que não és isso e nem aquilo

Perdoe-me por me contradizer novamente

É que vi não teu corpo despido

Mas a tua alma nua e ardente

Num jeitinho meigo e impetuoso

Despistes a ti mesma perante mim

E quanta angústia em cada peça de roupa tirada

E também quanta alegria

Até chegar em tuas partes mais íntimas

E então me chamas para a cama contigo

Não é só o teu rosto, os teus ombros

Tuas pernas e tuas mãos que queres que toque

Queres mesmo que sinta toda a tua carne

Todo o teu suor... o teu gemido

Queres tornar conhecida toda a tua dor

E também toda a tua alegre energia

Toda a vontade de se livrar disso

Contudo, ainda mais forte uma vontade de tomar toda a vida em si

E tua intensidade eroticamente delicada

Quente e carinhosa

Uma vontade de ser assim

Por vários motivos que me dissestes

Ardente, intensa, destilando carícias

Como quem sabe tudo o que se deve fazer

E fazes como quem nem precisou saber

Liberdade parece-me o nome do teu querer

Mas há que se dizer também de tua fera

Confesso, uma fera que ainda não sei dizer

Há uma que sai pelos campos e deixa sua presa estraçalhada

Após ter saciado a sua fome

Há outra fera em ti que quer encontrar-se com sua presa

Quer convidá-la para um café quente num dia frio

Dizer que as coisas não são bem assim

E não há nisso mesmo certo instinto animal?

E há que louvar a tua braveza

De ter saído para a caça e ter voltado com sangue nos dentes

E o ventre saciado

Há de se louvar a tua beleza

Que de outra forma sai para a caça

Assenta-se na praça, convida a alma

Para puxar uma cadeira

Há de se falar em tal heroísmo

Aquele sentimento vívido de existir

E dizer para si mesma: “eu”; ouvindo também de outros muitos: “ela”

Como a cena do guerreiro que volta para sua cidade com o grito de vitória

Que seja louvada também a tua outra parte

Que nem sai, nem caça, nem guerreia

Essa que com os pés sobre a areia

E e os calcanhares molhados pelo mar

Caminha mais bela que uma sereia

Por ter belos pés para caminhar

E que seja também feita a grande pergunta

Será que um dia poderás ter alguém próximo ao peito?

Alguém que recostado em teu seio possa te contar

Dos segredos mais ou menos suspeitos

Do tédio e das aventuras da vida

E eis ainda aqui um erro

Um erro meu, confesso

De ter visto-a em parte

E muito depois reconhecer a tua arte

Que como fera sais à procura de verdadeira amizade

Recolhes as tuas garras, desfaz-se de tuas amarras

E viras as costas para que te possa aquecer

E recostar em ti

Eis aqui a tua presa

Nem inocente, nem tanto indefesa

Mas que não vê em ti nenhum perigo

E há que se falar do prazer de assentar-se contigo

Comer juntos, andar juntos

Num tênue fio de estreiteza

Onde uma alma num absurdo da existência

Comunica-se e se faz conhecer à outra

E se entendem e falam uma mesma linguagem

Há que se louvar ainda o milagre

Que nem sendo aquele da multiplicação dos pães e dos peixes

Nem o acalmar das águas do mar

Mas aquele que sacia a alma... e a faz acalmar

Menina que anda solta pelas ruas

Leve, sorridente, bela, atraente...

Menina! Menina! Menina!

Mas por favor, perdoe-me a tolice

É que depois que te despistes

Tornastes totalmente bela para mim

Senti toda a tua pele

Senti teu abismo

Tua liberdade, teu pudor

Teus cabelos, teu calor

Tua voz que já não dizia palavras

Mas suspirava tão perto

Que era capaz de sentir teus lábios

Da forma mais intensa

Era o máximo que podíamos experimentar

Numa linguagem entre mim e ti

A fera e sua presa


PRESENTE AUSENTE DESPEDIDA

 

Sua-ausencia

 

Incrível a presença que me causas

É só assim que consigo pensar tua ausência

Vejo-te em cada cena

Como era quando estavas em cada delas

Dispo-me de todo orgulho

Do dizer “não era tão assim”

Dispo-me, exponho-me à minha nudez

Na transparência de mim mesmo

Vejo-te atravessando meus mundos

Significando-os

Teus olhares

Aqueles que não gostava

E só os passei a amar quando vi neles que vistes a si mesma amada

Via teus olhos mendigando amor

E fui o mais fundo, e vou...

Esmago-me nessa visão

Até que ela me humilhe

Posto que mendigas aquilo que dás generosamente

Teus olhares me doem

Revelam-me quem sou

Alvo de um amor sincero

Doce, delicado

Um amor em direção a um coração duro

Amargo, que nem sequer amor sabe doar

Sou quem dela se sente amado

Amado como ninguém

Sem desdém

Assim como sou

Que me aceita e me ensina

Que sendo pobre, cego e nu

Dá-me uma riqueza ímpar

Derramas em mim um tesouro

Sendo eu um vazo de lama

Enganas-me quando assim me olhas

Não estás a provar teu amor por mim

Estás a provar o quanto não sei sobre o amor

Teus olhos me atravessam a alma

E não sou eu quem os vejo

São eles que me olham

E sua tristeza é a de enxergar para além

Além do que em meus olhos de fato há

Apenas um longo e indeterminado vazio

Então plantas uma semente

Mas antes, só mesmo o teu amor,

Pode ver alguma terra em que possas cultivar

Só o teu amor pode crer em algo mesmo dentro do nada

Em que possas encontrar uma alma, um espírito

Ou apenas um coração de carne ao invés de pedra

Mas sabes que não tenho coração, sou pedra

E não deixas de acreditar

Sei falar do amor enquanto estás a me amar

Tão perto e distante, entre o que digo

E o que continuamente estás a me mostrar

Tuas palavras ecoam em silêncio

Em gestos e tudo, tudo e sempre mais um pouco

Quando penso haver terminado

Vais um pouco mais além, e mais além um pouco

Mostras me o infinito disso tudo

Desse mundo que conhecestes e queres me apresentar

E apresentas

Ah! Como me humilha o teu próprio coração!

E não é incoerência

É tua ausência que me faz enxergar

A falta que tua presença me faz

Essa do meu eu quando diante de ti está

Um eu inventado, criado, imaginado

Por ti, é claro!

Invenção tua, criação tua, imaginação tua

Sinto-me uma folha em branco

Onde brincas com teus encantos

Com lápis e cores tantos

E teu espírito tão criança

Rasga esse papel em que tu ti lanças

Em letras e rabiscos

Sem lógica nem traços definidos

Inventa-me

E gosto

Gosto de mim

Gosto do que fizestes

Obra de arte

Somente tua

Somente tua

 

AMOR, NASCIMENTO, MORTE, AMOR

 

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É só dor o que aqui digo

São sangramentos, febre, vômitos,

Tontura, vertigens, queda de temperatura

Essa doença mortal da qual nunca se cura

E que nunca mata

Continua tênue, temporalmente eterna e pura

Esse embate que vem de encontro

Um acidente hediondo

Entre “eu” e um “diante de mim”

Novamente encontro teus olhos

Nem rasos, nem profundos

Nem altos, nem baixos

Nem para um lado, nem para um outro

Em teus olhares todas as teses e antíteses estão desfeitos

Entro em outra dimensão

Sem teto nem chão

Sem ambiguidades ou relativismos

Vejo o absurdo

O indizível

Vejo minha morte, meu abismo

Se pulo para fora me arrisco

Se pulo para dentro me arrisco também

Se morro ou se vivo não vem ao caso

Nesse caso, nem a morte pode matar

Nem a vida pode salvar

Tese, antítese

Nem morte, nem vida

Essa linguagem estranha que a tudo confunde

Nunca morri, nunca vivi

Sabe-se lá o que seja isso

Porém és síntese, inaceitável

Síntese do que afinal?

São tantos os caminhos, só quero o único

Não vou falar do amor, desse que nunca conhecerei

Provo e desprovo, exaustivo assim

Quando vejo não sou mais o mesmo

E a sensação de que nunca mudei

Por que me deixastes tão livre?

Por que enfermastes meus olhos com tanta saúde?

És transparência, bondade, leveza

Sou apenas duvida

És toda certeza

Eu que nunca estive certo

Estar de ti tão perto me faz cair

Num profundo nada

Sinto-me absorto

Deve ser isso quando dizem: “Está morto!”

Que morte que nada

nem a sedutora palavra: “Vivo!”

a verdade é que não há palavra

a linguagem se perdeu

se quiser dar nomes terei que dá-los agora

Contudo necessito esquecer que o dizer que me ensinaram

Agora não vale nada...

Nem silêncio, nem palavra

O que é afinal a angústia? O desespero?

Pelo que tenho eu de me angustiar?

Pelo que tenho eu de me desesperar?

Talvez por te perder

Perder o amor

Não morrer, mas matar o que em mim há

Não quero, mesmo!

Não vou!

Não consigo!

Não faz sentido!

E que sentido afinal fará?

Nem quero que faça

Sentindo!

Que me importa que não entenda

Saio à chuva para me molhar

Que sentido há?

Caminho sozinho pelas ruas

Sem endereço ou lugar para chegar

Que sentido há?

São tantas as coisas que faço

Sem mesmo pensar

Sem haver algum sentido

São as melhores coisas que experimento

São as delícias que me chegam

Sem avisar me fazem companhia

Mesmo que nem companhia haja

Quando caminho pela calçada

Lembranças e histórias que estão por aí

Nem lá atrás, no passado, nem em algum lugar ao lado

Estão aí, soltas, sendo levadas pelo vento

Com toda sua brandura

Nos alentos de quem me cura

Cura-me de pensar-me doente

Febre ou tontura

Está, como tudo, cooperando para o meu bem

As mãos do Artífice

Estão sempre aí

Que mais posso desejar ou querer?

Nem desejo, nem vontade

Somente o Hoje

Somente o que me foi dado para ser e estar agora

Não peço mais nada, e um dia eu pedi

Mas negaste-me tudo, Amigo!

Tudo dando-me como sempre pedi

Não conhecia Tua linguagem

Quando disse “Paz!” não sabia o que entenderias

Concedeste-te me Paz, exatamente como queria

Mesmo pensando querer outra paz

A Ti me entrego
Vencido pelo Amor, por Ti mesmo

Pois lutei contra Ti

E deixastes-me vencer

Sem compreender

Vencestes a mim quando tudo entregastes

Quando menor que eu te fizestes

Quando me feristes para o Amor

Quando ajoelhastes aos meus pés

E os lavastes

E o que sou eu depois de Tu?

Depois que cometestes tal ato?
Depois que me arrancastes para fora de mim?

Deixastes a Glória dos homens

Quisestes a Glória do Amor

E de nada gloriastes senão em servir-me

Em lavar-me os pés

Em cansar-me no Amar

E vencestes quando por mim deixastes a Ti mesmo ser vencido

E amastes-me até o fim

E não importa lavar-te os pés

Nem mesmo sentido nisso há

Importa lavar os pés daquela a quem amo

Daquela que roubou meus ânimos

E tocou meu coração

Daquela que com tantos carinhos

Mudou meu caminho

Não tem como a ela não ir em direção

Lembrando-me daquele gesto

Que me ensinastes muito antes

Contudo deu-me tal entendimento

Que nela me conquistastes

Em amor, no meu tempo

Tempo escolhido por Ti

E que nunca mesmo escrevi tal coisa

Fostes Tu que abristes o livro

Fostes Tu que escrevestes esta história

Fostes Tu que me ensinastes o Amor

Não há como esquecer

Não há como ser o que era dantes

Um caminho sem volta depois que me olhastes nos olhos

Encontrastes meu ser e me revelastes

Quem sou e quem Tu és

Fizestes novas todas as coisas

Eis-me aqui

Eis-me aqui

 

DRUMMOND SEM TRIUNFOS

Chega um tempo em que só se diz "meu Deus" Tempo de inabissoluta depuração Tempo em que se diz "meu amor" Pois o...