terça-feira, 14 de janeiro de 2014

MENINA QUE ANDA SOLTA PELA RUA

 

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Menina que anda solta pela rua

Vestido de menina, sorriso de menina

Uma leveza também de menina

E dizes tantas coisas e são palavras tão frágeis

Como os de uma menina

Inevitável não te reconhecer mulher, claro

Mas é que não falo disso

De suas belas e macias curvas

De seus traços delicados

Falo da que me fala de si mesma

E por mais assustador que seja

Transcende ainda mais sobre isso tua beleza

Uma contradição frágil

Quem nunca ouviu esse conto antes?

A menina perdida e o herói feito da oportunidade

Da oportunidade de acolher

Ela, frágil, ele, querendo proteger

E enquanto falavas, nem de certo sei

Se eram nas palavras que estava afim

E desde já me perdoe

Por minhas seguidas contradições

É que observava as palavras escritas em ti

Na expressão do teu corpo

Dos teus membros

Em cada curva dos teus olhos

Em cada gesto de teus lábios

Um jeito de cruzar as pernas

E outro jeito de descruzá-las

Todos os traços entre um silêncio calmo

E outro cheio de ansiedade

Todos os pedidos contidos e incontidos

Uns quase que não ditos

Outros gritados dos telhados

Toda a tua pele tem um tom elevado

Elevado para quem se atreve descrevê-lo

Mas eis o fantástico do corpo

Que permite pelo tato dizê-lo

E não pense que teus calafrios e calores nada me disseram

O aquecer e o esfriar de tua pele mostraram-me tua verdadeira linguagem

Ela me diz quando acreditar ou não em ti

Na menina que carrega o mais belo signo em si

O de ser menina, um jeito menina de ser assim

E há de se conhecer também o teu demônio

Esse teu jeito de menina

Que faz crer que tens a chave que abre todas as portas

A da alegria: leveza e brilho dos tempos de criança

É assim que encantas quando passas pelas ruas bailando em sorrisos

É assim que atrai os olhares vorazes e vampirescos

Que desejam esse teu vigor

Também és desejo daqueles que sonham e poetizam

Resumes em ti mesma o instante da filosofia

Um momento de eternidade no temporal

Contudo, te tornas num instante contínuo

Transcendes a esse instante finito

E é quase necessário cantar um hino

À beleza de tua teofania 

Mas diga-me com toda sinceridade, menina!

Que não és isso e nem aquilo

Perdoe-me por me contradizer novamente

É que vi não teu corpo despido

Mas a tua alma nua e ardente

Num jeitinho meigo e impetuoso

Despistes a ti mesma perante mim

E quanta angústia em cada peça de roupa tirada

E também quanta alegria

Até chegar em tuas partes mais íntimas

E então me chamas para a cama contigo

Não é só o teu rosto, os teus ombros

Tuas pernas e tuas mãos que queres que toque

Queres mesmo que sinta toda a tua carne

Todo o teu suor... o teu gemido

Queres tornar conhecida toda a tua dor

E também toda a tua alegre energia

Toda a vontade de se livrar disso

Contudo, ainda mais forte uma vontade de tomar toda a vida em si

E tua intensidade eroticamente delicada

Quente e carinhosa

Uma vontade de ser assim

Por vários motivos que me dissestes

Ardente, intensa, destilando carícias

Como quem sabe tudo o que se deve fazer

E fazes como quem nem precisou saber

Liberdade parece-me o nome do teu querer

Mas há que se dizer também de tua fera

Confesso, uma fera que ainda não sei dizer

Há uma que sai pelos campos e deixa sua presa estraçalhada

Após ter saciado a sua fome

Há outra fera em ti que quer encontrar-se com sua presa

Quer convidá-la para um café quente num dia frio

Dizer que as coisas não são bem assim

E não há nisso mesmo certo instinto animal?

E há que louvar a tua braveza

De ter saído para a caça e ter voltado com sangue nos dentes

E o ventre saciado

Há de se louvar a tua beleza

Que de outra forma sai para a caça

Assenta-se na praça, convida a alma

Para puxar uma cadeira

Há de se falar em tal heroísmo

Aquele sentimento vívido de existir

E dizer para si mesma: “eu”; ouvindo também de outros muitos: “ela”

Como a cena do guerreiro que volta para sua cidade com o grito de vitória

Que seja louvada também a tua outra parte

Que nem sai, nem caça, nem guerreia

Essa que com os pés sobre a areia

E e os calcanhares molhados pelo mar

Caminha mais bela que uma sereia

Por ter belos pés para caminhar

E que seja também feita a grande pergunta

Será que um dia poderás ter alguém próximo ao peito?

Alguém que recostado em teu seio possa te contar

Dos segredos mais ou menos suspeitos

Do tédio e das aventuras da vida

E eis ainda aqui um erro

Um erro meu, confesso

De ter visto-a em parte

E muito depois reconhecer a tua arte

Que como fera sais à procura de verdadeira amizade

Recolhes as tuas garras, desfaz-se de tuas amarras

E viras as costas para que te possa aquecer

E recostar em ti

Eis aqui a tua presa

Nem inocente, nem tanto indefesa

Mas que não vê em ti nenhum perigo

E há que se falar do prazer de assentar-se contigo

Comer juntos, andar juntos

Num tênue fio de estreiteza

Onde uma alma num absurdo da existência

Comunica-se e se faz conhecer à outra

E se entendem e falam uma mesma linguagem

Há que se louvar ainda o milagre

Que nem sendo aquele da multiplicação dos pães e dos peixes

Nem o acalmar das águas do mar

Mas aquele que sacia a alma... e a faz acalmar

Menina que anda solta pelas ruas

Leve, sorridente, bela, atraente...

Menina! Menina! Menina!

Mas por favor, perdoe-me a tolice

É que depois que te despistes

Tornastes totalmente bela para mim

Senti toda a tua pele

Senti teu abismo

Tua liberdade, teu pudor

Teus cabelos, teu calor

Tua voz que já não dizia palavras

Mas suspirava tão perto

Que era capaz de sentir teus lábios

Da forma mais intensa

Era o máximo que podíamos experimentar

Numa linguagem entre mim e ti

A fera e sua presa


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