terça-feira, 14 de janeiro de 2014

AMOR, NASCIMENTO, MORTE, AMOR

 

01RDP_END_SPAN-articleLarge

 

É só dor o que aqui digo

São sangramentos, febre, vômitos,

Tontura, vertigens, queda de temperatura

Essa doença mortal da qual nunca se cura

E que nunca mata

Continua tênue, temporalmente eterna e pura

Esse embate que vem de encontro

Um acidente hediondo

Entre “eu” e um “diante de mim”

Novamente encontro teus olhos

Nem rasos, nem profundos

Nem altos, nem baixos

Nem para um lado, nem para um outro

Em teus olhares todas as teses e antíteses estão desfeitos

Entro em outra dimensão

Sem teto nem chão

Sem ambiguidades ou relativismos

Vejo o absurdo

O indizível

Vejo minha morte, meu abismo

Se pulo para fora me arrisco

Se pulo para dentro me arrisco também

Se morro ou se vivo não vem ao caso

Nesse caso, nem a morte pode matar

Nem a vida pode salvar

Tese, antítese

Nem morte, nem vida

Essa linguagem estranha que a tudo confunde

Nunca morri, nunca vivi

Sabe-se lá o que seja isso

Porém és síntese, inaceitável

Síntese do que afinal?

São tantos os caminhos, só quero o único

Não vou falar do amor, desse que nunca conhecerei

Provo e desprovo, exaustivo assim

Quando vejo não sou mais o mesmo

E a sensação de que nunca mudei

Por que me deixastes tão livre?

Por que enfermastes meus olhos com tanta saúde?

És transparência, bondade, leveza

Sou apenas duvida

És toda certeza

Eu que nunca estive certo

Estar de ti tão perto me faz cair

Num profundo nada

Sinto-me absorto

Deve ser isso quando dizem: “Está morto!”

Que morte que nada

nem a sedutora palavra: “Vivo!”

a verdade é que não há palavra

a linguagem se perdeu

se quiser dar nomes terei que dá-los agora

Contudo necessito esquecer que o dizer que me ensinaram

Agora não vale nada...

Nem silêncio, nem palavra

O que é afinal a angústia? O desespero?

Pelo que tenho eu de me angustiar?

Pelo que tenho eu de me desesperar?

Talvez por te perder

Perder o amor

Não morrer, mas matar o que em mim há

Não quero, mesmo!

Não vou!

Não consigo!

Não faz sentido!

E que sentido afinal fará?

Nem quero que faça

Sentindo!

Que me importa que não entenda

Saio à chuva para me molhar

Que sentido há?

Caminho sozinho pelas ruas

Sem endereço ou lugar para chegar

Que sentido há?

São tantas as coisas que faço

Sem mesmo pensar

Sem haver algum sentido

São as melhores coisas que experimento

São as delícias que me chegam

Sem avisar me fazem companhia

Mesmo que nem companhia haja

Quando caminho pela calçada

Lembranças e histórias que estão por aí

Nem lá atrás, no passado, nem em algum lugar ao lado

Estão aí, soltas, sendo levadas pelo vento

Com toda sua brandura

Nos alentos de quem me cura

Cura-me de pensar-me doente

Febre ou tontura

Está, como tudo, cooperando para o meu bem

As mãos do Artífice

Estão sempre aí

Que mais posso desejar ou querer?

Nem desejo, nem vontade

Somente o Hoje

Somente o que me foi dado para ser e estar agora

Não peço mais nada, e um dia eu pedi

Mas negaste-me tudo, Amigo!

Tudo dando-me como sempre pedi

Não conhecia Tua linguagem

Quando disse “Paz!” não sabia o que entenderias

Concedeste-te me Paz, exatamente como queria

Mesmo pensando querer outra paz

A Ti me entrego
Vencido pelo Amor, por Ti mesmo

Pois lutei contra Ti

E deixastes-me vencer

Sem compreender

Vencestes a mim quando tudo entregastes

Quando menor que eu te fizestes

Quando me feristes para o Amor

Quando ajoelhastes aos meus pés

E os lavastes

E o que sou eu depois de Tu?

Depois que cometestes tal ato?
Depois que me arrancastes para fora de mim?

Deixastes a Glória dos homens

Quisestes a Glória do Amor

E de nada gloriastes senão em servir-me

Em lavar-me os pés

Em cansar-me no Amar

E vencestes quando por mim deixastes a Ti mesmo ser vencido

E amastes-me até o fim

E não importa lavar-te os pés

Nem mesmo sentido nisso há

Importa lavar os pés daquela a quem amo

Daquela que roubou meus ânimos

E tocou meu coração

Daquela que com tantos carinhos

Mudou meu caminho

Não tem como a ela não ir em direção

Lembrando-me daquele gesto

Que me ensinastes muito antes

Contudo deu-me tal entendimento

Que nela me conquistastes

Em amor, no meu tempo

Tempo escolhido por Ti

E que nunca mesmo escrevi tal coisa

Fostes Tu que abristes o livro

Fostes Tu que escrevestes esta história

Fostes Tu que me ensinastes o Amor

Não há como esquecer

Não há como ser o que era dantes

Um caminho sem volta depois que me olhastes nos olhos

Encontrastes meu ser e me revelastes

Quem sou e quem Tu és

Fizestes novas todas as coisas

Eis-me aqui

Eis-me aqui

 

Nenhum comentário:

DRUMMOND SEM TRIUNFOS

Chega um tempo em que só se diz "meu Deus" Tempo de inabissoluta depuração Tempo em que se diz "meu amor" Pois o...