segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O RESGATE DO SOLDADO RYAN E O DE TODOS NÓS



A cruz se tornou o maior peso de todos. Parece que na história não houve maior carga imposta sobre os ombros dos humanos quanto à carga de se carregar a cruz, sendo que o significado de carregar a cruz se tornou um tipo de “gratidão-obrigatória”, como se o “não agradecer”, seja lá de que forma for, a Deus pela morte de Cristo, e isso significa se empenhar para viver devotadamente a Ele de modo que isso se FAÇA GRATIDÃO pelo que Ele fez, que essa devoção se torne em um modo de devolução ao que Ele fez por mim, então, não se entregar a essa “gratidão” seria o “não ser” de fato “grato”. É como que se a morte de Cristo me fizesse ser inevitavelmente alguém entregue a esse “fazer por gratidão”, o que só mascara as coisas, mas se torna semelhante ou mais pesado do que o “cumprir a Lei” para ser por meio dela salvo. Portanto, os termos que costumo ouvir, tais como “viver uma vida em gratidão a Deus”, “viver em adoração pelo que Ele fez”, “entregar-me a Ele porque Ele me comprou por um alto preço e agora sou Dele”... Me cheiram coisas do tipo “me tornar um esquizofrênico que se hipnotizou com a cena da cruz e que não conseguiu transcender a ela”. Foi, olhou, congelou, e ficou, e assim passa a vida toda sem sair dali, olhando pra Jesus, só que pendurado ainda, e todo ensangüentado, dilacerado.

A cena é pesada de fato, mas o que é mais pesado do que a cena é a mensagem que costumamos ouvir de que, se Cristo morreu por nós de tal forma, então devemos FAZER POR MERECER nos subjugando a sessões e sessões de auto-flagelamento seja ele físico, mental ou periódico (usei esse termo para referir-me àqueles que doam o seu tempo como sacrifício), e isso tudo pela consciência de que temos que ser devotos a Cristo porque o que ele fez não pode se tornar EM VÃO (e isso carregado do sentido que se não reafirmarmos Cristo em nós mesmos sempre sendo estereotipada-mente como ele, e isso sendo manifestado de forma a se criar um ser estranho que não a gente mesmo, vivendo no limbo da opressão vinda da cruz que nos foi imposta, então, se não me entrego à vida com Deus de tal forma serei eu culpado de ter feito da cruz de Cristo uma inutilidade). Mas a cruz nos assusta. Quem poderia compreender tal feito? De Graça? Na verdade, que Graça há naquela cena? Um ser que, por mais que seja Deus em carne, sendo humano é crucificado pelo mundo, isso é assustador. Por isso aquela cena não pode carregar significado algum se não carregar consigo o Espírito que de Deus insurge, o amor do Pai, mas, devo voltar ao assunto: a cena da cruz.

Estamos sempre renunciando a vida por amor a Cristo (e esse amor a Cristo implica em instituir um tipo de vida em plena “devoção” a Ele), renunciamos tudo aquilo para o qual Ele nos chamou, para festejar a vida que há em nós em Graça e Verdade.

O uso da cena do filme “O resgate do soldado Ryan” representou muito bem essa “renúncia à vida” ou mesmo essa paralisia perante a cena da crucificação. O filme mostra um resgate que racionalmente não teria valido a pena pela quantidade de mortes causadas no resgate do tal Ryan. E o protagonista do filme declara todas essas coisas no final dizendo que nem mesmo a alegria da mãe do jovem seria recompensadora devido à morte de tantos outros soldados que pertenciam, assim como o Ryan, a outras famílias. Mas o ponto chave é o que o comandante do exército diz ao Ryan pouco antes de morrer. Com aquele ar de árdua guerra e alto preço pago com outras vidas para resgatar simplesmente o tal do Ryan ele diz ao jovem: FAÇA POR MERECER. E o jovem se congela naquela fala, como disse, ele se fixa naquilo que o comandante disse. Então o protagonista diz que ele continuou servindo o exército, supostamente pelo peso dos ecos daquela frase “FAÇA POR MERECER”.

E então, aquele resgate que era pra resultar numa dádiva e numa segunda chance para que aquele jovem pudesse viver normalmente, se transformou, por causa daquela consciência que lhe foi imposta do “fazer por merecer”, na morte cotidiana do jovem resgatado, pois se fixou em seu coração que ele teria que FAZER POR MERECER e que a renúncia da sua vida lá fora, longe daqueles campos e climas de guerra, enfim, uma vida para o qual foi resgatado, deveria se tornar em GRATIDÃO-CULPOSA, pois cada dia ali confinado nos batalhões onde viveu por muito tempo ainda era o preço que ele mesmo estava pagando pela vida de cada um que morreu para resgatá-lo. Sendo assim, o jovem faz da morte de todos os que em favor dele morreram uma inutilidade, era resgate para a vida não para a morte, antes o Ryan ter morrido ainda jovem, assim não se teria tido os prejuízos do resgate. E é aqui que entra então a consciência da “CRUZ QUE SE TORNA NEGAÇÃO DA CRUZ”. Cristo morreu de uma vez por todas e por todos, e essa morte realiza o fim para o qual se convergi todas as coisas e é plena de realização de modo a se tornar suficiente, e o que é suficiente não carece de acréscimo algum, seja de quem for.

O “Está consumado” (declarado na cruz por Jesus) realiza em si todas as necessidades salvíficas, redentoras, justificadoras e santificadoras, realiza toda a justiça de Deus e abri o caminho eterno para o acesso ao Pai dado gratuitamente por meio do Filho mediante a fé. Simplesmente por Graça. Nunca ecoou daquela cruz a frase “FAÇA POR MERECER” mas sim o “ESTÁ FEITO”, e isso por quem nunca mereceu, não merece e nunca irá merecer, e o maior insulto à morte de Cristo é o “FAZER POR MERECER” pois, assim se faz da cruz uma não necessidade, uma manifestação vã, inútil. É então assumindo essa cruz de “FAZER POR MERECER”, o que é literalmente uma cruz e sem dúvidas a mais pesada de todas, pois, nega-se a cruz de Cristo vivendo em função de pagar por ela; nega-se a liberdade para a vida morrendo cada dia na paranóia de olhar para o “Cristo pendurado no madeiro” e não transcender dali; nega-se o chamado para a vida num confinamento culposo que gera apenas a morte; e Paulo diria “separados estais de Cristo, caíram da Graça”. O “FAZER POR MERECER” não é outra coisa senão a negação da cruz de Cristo.

Mas o que ainda quero acrescentar é que a morte de Cristo é um chamado para a vida e não à neurose de viver com os olhos fixos na cena da crucificação e morrer ali mesmo, e isso porque Cristo ressuscitou, pois, se Cristo não ressurgiu dentre os mortos já não nos restaria esperança alguma. Mas ele morreu e ressuscitou e trouxe consigo as chaves da morte e do inferno. Portanto a chave da morte está nas mãos de quem é a Vida; a chave do inferno está nas mãos de um libertador, salvador, redentor, justificador...; a cruz entra não só na história terrestre mas atingi a todas as dimensões conhecidas e desconhecidas por nós humanos; ela traz vida dentre os mortos, dentre os que estão vivos, e dentre os que ainda não nasceram, de modo que até o inferno não ficou fora dessa. Assumir essa cruz de “FAZER POR MERECER” é assumir uma “CRUZ QUE SE TORNA NEGAÇÃO DA CRUZ DE CRISTO”. Se nega o perdão incondicional de todos os meu erros e falhas, pecados, transgressões já cometidos e que irão ainda se consumar, e nisso corro o risco de ficar com medo de viver, de errar, de não ser “perfeito”, de não me enganar, pois essa consciência não se encharcou do perdão do Pai celestial;

se nega a justiça imputada a mim obrigando-me a viver no desespero existencial de ter que me justificar perante o Pai, e ainda corro o risco de sair por aí exercendo juízo sobre os outros pela presunção da justiça própria conquistada por mim, o que é falácia diabólica, e assim, passo a ver a vida como algo que está contra mim ao invés da consciência de que ela nem está contra nem a favor, a vida é apenas para se viver, nada mais; se nega a redenção já consumada fazendo com que eu me aproprie de meios para fazer propiciação pelos meus pecados e ainda corro o risco inevitável de “renunciar à vida” por medo da condenação divina, corro o risco de chegar lá na frente cheio de amarguras e insatisfações por não ter vivido; nega-se também o viver em paz sem a paranóia de querer salvar o mundo, sem esse peso de ter que ser a boca de Deus na terra, afinal, Ele mesmo foi quem criou a boca, os sons que dela emitem, portanto, ele sabe se comunicar bem com tudo e todos, e corro o risco de, infelizmente, ser um desses missionários que só estão lá por “FAZER POR MERECER”, pastores que estão “PAGANDO O PREÇO”, “ministros de louvor” que estão “VIVENDO UMA VIDA DEVOTADA A DEUS, FAZENDO POR MERECER”, enfim, pessoas que estão ganhando o mundo inteiro, e como diria Gondim, “perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar a poesia e de cantar canções de ninar, enfim, perdendo a alma”.

E o que entendo como “o viver” é justamente ir pelo caminho e se arriscar se for preciso, errar, chorar, alegrar-se, vencer, e tudo isso sem culpas e suas implicações. Creio que apenas com o perdão se é possível assumir a consciência de que não somos perfeitos e faremos muitas coisas das quais não iremos querer; só com a consciência de que Deus trata com amor todas as minhas feridas e o remédio é o seu perdão incondicional, é que posso então dar-me a chance de vencer ou perder, de rir ou de chorar, de entristecer ou me alegrar, de ser perdoado ou de perdoar, de amar e ser amado, pois é assim que Deus trata conosco na vida, na existência, com amor e perdão e reconciliação eternamente consumada, portanto, Ele já me aceitou, já está em paz comigo. Seja quem for que eu seja, pra Deus eu sou aquele por quem Ele entregaria todas as coisas, e gratuitamente, pois entregou o seu próprio filho.
Para Jesus o negar a si mesmo não implicou em morte de nada que é vida, mas apenas na morte de tudo o que mata

NELE, EM QUEM NEGANDO-SE A CRUZ NEGA-SE A VIDA, E O QUE HÁ DE MAIS IMPORTANTE NA VIDA DO QUE VIVER? ESSE É O CHAMADO DE CRISTO: A VIDA EM VERDADE NO CAMINHO QUE É ELE MESMO. AMÉM!

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