segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ENTREMENTES EXISTÊNCIA – (parte 3)

Dor
Um crepúsculo silencioso e não mais que suaves assobios de pássaros, e não muitos
Poucos, três ou quatro e uma brisa
Um silêncio perturbador e ao mesmo tempo aconchegante
Mais aconchegante do que perturbador
Um sinal porém não uma direção
Um ir sem saber para onde, sabe-se apenas para onde não ir
Uma carência, um frio
Um beijo
Um  carinho estranho, um bom aroma é essencial
Cheiros
Desejos
Um morango, uma hortelã, um amadeirado, um silvestre
Um forte, outro intenso, outro ainda fraco, ou suave
Uma sugestão, não mais do que aquilo que eu mesmo deseje
Não mais do que aquilo que desperte em mim uma ligeira imaginação
Imaginação que fora dos ponteiros parece eterna, uma eternidade dentro da outra
Pele
Essa coisa que me identifica diante dos olhos
E que desejo e que me desejam
Pernas, lábios e sinuosas curvas, curvas expostas e outras escondidas
Sugerem, incitam, completam ou completaria
Esse vazio, essa angústia
Seria perfeito, a satisfação do desejo
Mas é curto, passageiro
Gozo
Não mais que um segundo de eternidade dentro de eternidades de eternidades
Então
Pernas comuns, lábios comuns, curvas sinuosas mas comuns, curvas expostas e outras que não quero ver mais
Uma falha
Um novo desejo, desejo de outras pernas, outros lábios, outras curvas
Outras que me estejam escondidas, ainda não descobertas
E não vou mentir para você
Não são curvas nem lábios
É o desejo
Mas o que o move?
O que move esse desejo?
É desejo por que?
A dor, a angústia, o desespero…?
Não me importa o que é o desejo, apenas o que o move
A dor é ferida; a angústia, caminho até a vida
O desespero, falta de saída

ENTREMENTES EXISTÊNCIA – (parte 2)

Efêmero
“Tudo passa” diriam alguns
Os pessimistas diriam que o pior nunca passa
Os otimistas diriam que tudo está como deve estar, bem
Não gosto de rótulos, não encontro nada que rotule o meu existir
E me diga que deve ser assim ou assado
Diria que tudo passa e torna a ser outra vez
O vazio parece ser eterno mas basta a angústia ou a alegria (não a felicidade)
Para tornar todo o vazio um esquecimento do qual  (me perdoem a redundância)
Não se lembre tê-lo vivido uma vez sequer
No entanto basta a rotina de sucessivos sentimentos intensos
Para torná-lo, o vazio, vívido como se eternamente ele estivesse presente
Talvez ainda mais quando ausente
E então um nada… um espaço de tempo
Um tempo cheio de espaços
Vazio
Perder-se
Não se sabe mais o que é o quê
Nada de leis, nada de regras nem mandamentos
Temer a Deus ainda parece ser o princípio da sabedoria
Uma fumaça desvanescente, um algo visto de longe
Embaçado, obscuro… parece porém não se sabe
Uma possibilidade, uma oportunidade
E o coração vai sentindo que não é por ali
Mas é possível e oportuno que se vá por aí
Mas o coração sabe e nem sei dizer como
Sabe que não me perdi, apenas quero me perder
E porque?
Esses ventos, esses tempos, angústia e vazio
Esse mundo, esse homem do século XXI, essa Era
São poucos os que se encontram, poucos os que se encontraram
E talvez menor seja o número dos que se encontrarão
Sentidos, sentimentos, razão
Amor
Já se sabe que não é um desejo mas um querer
Mas não apenas um querer, uma escolha essencial
Uma essência que vem de longe. E é tão perto!
Talvez seja por isso que pareça tão longe
Nunca vi coisa tão embaçada quanto aquilo que está bem diante dos olhos
O amor, não a dor! A dor é do ego que declina, em vão tenta resistir

ENTREMENTES EXISTÊNCIA– (PARTE 1)

Não sei, acho que os ventos passaram, eu não vi
Uma sensação de um lugar sem lugar
Um chão rodeado de infinitos vazios
Angústia
Preso ao tempo que não se conta
Já nem sei minha idade
Não sei se os anos dos calendários fazem jus
Aos tempos de intensidades que vivi
Quantos anos dura um período de angústia?
Quantas décadas são sentidas num espaço de tempo sem respostas?
O relógio ficou caduco, seus ponteiros estão mortos
E por ironia ainda matam
Está tudo tão perto…!
Mas também os nossos sistemas de medidas não sabem medir existências
Não sabem mensurar nem a distância nem o tempo
entre um olhar cabisbaixo e um sorriso cheio de lágrimas
Mas não sei, os ventos passaram, eu não senti
Atônito fico como quem teve a casa saqueada pela madrugada
Como um ladrão na noite, esse tempo, esses ventos, esses tempos
Há uma saudade em mim que não é romântica
É dor, é carência, é tristeza
E nisso tudo um sorriso como que uma pausa
Entre a fé e o desespero
Amor! Meu amor! Para onde os ventos te levaram?
Eu sei! Não levaram a lugar nenhum
O seu endereço continua sendo o mesmo
É aquele velho problema das distâncias não mensuráveis
Te sinto tão longe! Para onde os ventos te levaram?
Meu amor! Para onde os ventos me levaram?
Será você? Será eu? Quem foi arrastado por esses tempos afinal?
Fomos nós?
E agora?
A sua mão é uma miragem, e eu vou de mãos dadas
Mas esses ventos… Ah! Esses ventos me fazem lembrar
que só existe a minha mão à procura de outra
Talvez tenha que obscurecer os olhos para não encarar o meu estar só
Para não ver que entre meus dedos estão esses ventos, esses tempos
Solidão
Silêncio

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

RELATIVIZADO PELO ABSOLUTO – um ensaio

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O ser humano é relativo? Isso é absoluto? Segue-se que, digo eu, o relativo só existe em consideração do absoluto, e uma vez que este é extinto o outro também deixa de existir. Assim não há tema sobre relatividade se não há a consideração de um absoluto, seja este qual absoluto for.

Entendo que todos são relativos por haver sempre absolutos, de modo que só há relatividade porque sempre haverão absolutos. Assim sendo, o que move o ser humano é aquilo que ele concebe ou posta para si mesmo como um ponto fixo - um absoluto - e a partir desse absoluto ele está relativizado, pois, viverá de acordo com o seu ponto absoluto pelo qual se entende a si mesmo, entende de onde veio e para onde vai. Assim alguns dirão “não há absolutos” e assim está posto o seu absoluto na não absolutização de coisa alguma, nisso se satisfará sua existência na relação consigo mesmo, com o outro e com as variegadas e multiformes facetas da vida: seja amizade, paternidade, trabalho, diversão. (Por fé digo apenas aquilo que move a existência básica de um ser humano, assim se pode crer que não haja absolutos e por qualquer coisa está relativizado, pelo nada em direção do nada, logo o paradoxo está colocado, pois pelo nada está relativizado, assim a relativização perde seu sentido tomando seu sentido no nada e para o nada. Ainda assim tal ser existe como relativizado diante de um absoluto. Assim o ser humano é relativizado pela fé que o move, sendo tal fé inconstante também será relativizado pela circunstância que o oprime).Tudo estará subjugado pela sua fé, crença, cosmovisão ou do que quer que chamem: eu chamarei tal de “ponto absoluto”. Da mesma forma um ateu que diz “não há Deus” viverá a partir desse ponto absoluto, e é esse ponto que o relativizará fazendo com que não viva senão de acordo com uma ausência de divindade, pois, como crê ou como entende, “não há Deus”.

A minha proposta aqui, nesse texto, será sempre caminhar o tema em torno do meu absoluto: Cristo. Como disse no parágrafo anterior, todo absoluto relativiza aquele que pelo absoluto de sua fé relativizou-se a si mesmo. Assim quando se diz “Amém” ao Evangelho por ele se está relativizado de modo que tudo o que Cristo disse que deveria ser será posto em prática por aquele que creu Nele. Não é um exercício racional, mas é um “Amém” movido pela fé. Todo aquele que de modo racional se subjuga à Cristo, sobre a dúvida se posta como indivíduo diante dele, pois a razão está sempre num diálogo duvidoso com a existência e com a fé. Assim Cristo será a mediação de todas as relações do indivíduo que nele creu com todas as outras coisas, pessoas e situações da vida. E a pergunta para tudo isso seria: como Cristo viveu isso? O que Cristo fez diante disso? E a resposta dessa pergunta será a resposta dada também pelo indivíduo à situação em que se encontrar. Tal indivíduo estará sempre relativizado pelo ponto máximo de sua fé, nesse caso, o que Cristo viveu.

Uma vez que creio no Evangelho e o tenho como ponto absoluto no qual toda a minha existência está subjugada por ele, relativizo-me exatamente no ponto onde estabeleço tal absoluto, pois, por ele (o evangelho) mediarei toda a minha forma de existir, de modo que serei por ele influenciado desde a maneira como me assento às refeições à maneira como trato o meu próximo. Ou seja, não será mais uma vivência a partir de outro ponto (por exemplo, o ego) mas será o Evangelho que estabelecerá o meu modo de existir na vida. É só assim que, em havendo alguém que me fira um lado da face, lhe dou a outra; só assim que, estando sobre a obrigação arbitrária daquele que me leva com ele a andar um milha, ando duas; é só assim que ao invés de levar meu próximo ao tribunal o perdoo. Isso tudo porque estou relativizado diante de tudo e de todos por tudo aquilo que Cristo disse que seria o que é para ser, e que pelo absoluto de si mesmo, relativizou-me.

Se por Cristo estou relativizado toda minha existência está relativizada, então posso chegar à máxima de que “não mais vivo eu, mas Cristo vive em mim”, de modo que não ajo senão segundo Cristo por Nele ter posto a minha “confiança”, “fé” de que ele é o Absoluto, e fora dele nada há. Quando digo “não mais vivo eu mas Cristo vive em mim” submeto todos os meus pensamentos, sentimentos, pulsões, desejos, vontades àquilo que ele diz “sim” ou mesmo diz “não”. E é só assim que poderei dizer: Cristo vive em mim. Pois já não estarei sob nenhum absoluto que não seja Cristo. Poderia ser a moral, a ética, o ateísmo, o Budismo, Hinduísmo, capitalismo, e por esses estaria relativizado e subjugado a ser conforme o mandamento de cada um desses pontos que podem também serem estabelecidos como pontos absolutos. Dizer que se pode ter mais de um absoluto seria dizer que se tem dois deuses, hora agradando a um e desagradando o outro, hora fazendo o contrário, nunca sendo possível seguir dois em sincronia harmônica, seria algo como “ânimo dobre”.

Porém, uma vez que posto o meu Absoluto por ele estou relativizado para o bem ou para o mal. De modo que quando posto um absoluto e enquanto na direção dele caminho, para o bem está posto, porém quando contra tal absoluto caminho, para o mal está posto. No caso do Evangelho, quando para o bem, a alegria, quando para o mal, o pecado. É como estabelecer uma lei que quando a favor dela tenho a vida, quando contra ela tenho a condenação. E alguém diria “Mas o Evangelho não me condena em nada”. Diria eu, pobre alma. Em tudo o Evangelho nos condena de outra forma Cristo seria dispensável, se Ele serviu como propiciação foi por condenar o mundo, todos nós. Então não nos condena mais porque já condenou o pecado na carne de Cristo? Não, estamos sendo condenados o tempo todo, assim diz a angústia e o desespero. Assim dizem as crises e as infindas transformações. Estamos sendo condenados o tempo todo, é por isso que estamos sendo salvos, caso contrário já não necessitaria dessa diária salvação. Assim quando posto um Absoluto, por ele estou condenado ao bem e ao mal. E aqui abre-se um precedente de que, para o interesse de cada um, para que o mal não seja mal e seja algo que pode-se relativizar em bem, cada qual nesse ponto deixará de ser relativizado pelo Evangelho e relativizará o Evangelho, uma inversão demoníaca. A doença é esperar experimentar o bem naquilo que o Evangelho diz que é mal.

Quem está relativizado pelo Absoluto, nesse caso, o Evangelho, por ele está subjugado e mediado nos âmbitos de toda a vida, de modo que não há como dizer “tenho certeza sobre Cristo, mas tenho dúvidas sobre a vida”. Toda a vida estará relativizada pelo Absoluto, uma vez que toda ação e atitude estará mediada por aquilo posto como ponto absoluto, ou seja, pela fé no Evangelho.

Mas é possível estar absolutamente relativizado pelo absoluto?

“Amém” seria a única palavra capaz de tornar isso possível, pois encerra nela um “sim” que subjuga toda e qualquer forma de existir fazendo com que diante de todas as circunstâncias da vida estejam submetidos ao Objeto mediador da fé, o Absoluto.

Uma vez tendo o Evangelho como absoluto, todo aquele que diante de uma situação de decisão se colocar ou for colocado tomará aquela mediada pelo próprio Evangelho, seguindo de modo absoluto aquilo que Cristo postou como aquilo que é para ser.

Então alguém pergunta: Como seria isso possível? E se eu duvidar que isso seja de fato a coisa certa a se fazer? Então dará provas que não se está relativizado pelo Evangelho, podendo até dizer “sim” para algumas coisas que nele há e que intermedeie as relações com o próximo e com a vida porém seu sustentáculo maior será sempre o da dúvida, e aquele que pratica o Evangelho em dúvida o pratica numa relação qualquer que não a fé.

Quem está relativizado pelo Evangelho jamais peca? De fato a resposta é “não”, porém aquele que peca tendo o Evangelho como seu absoluto, peca como quem de forma não-deliberada comete pecado. Assim peca, mas não peca como aquele que está perdido para uma relação absoluta com Cristo, ou seja, contra Cristo está absolutamente relativizado.

Abrindo um adendo aqui, exatamente nesse ponto: Pode ser que alguém que esteja relativizado pelo Evangelho não esteja absolutamente relativizado por ele, assim não se está absoluto no Evangelho mas de forma relativa está relativizado por ele, posto que está por ele e por outros pontos relativizado. Assim quem está em parte relativizado pelo Evangelho não o cumpre em sua absoluta obra, mas em forma relativa pois por ele não está relativizado absolutamente. Juntamente com ele (o evangelho) existem outros senhores, como explicaria melhor Romanos 7, quando diz que existe esse “’outro’ que habita em mim”.

Vale aqui uma pequena abertura de um outro assunto: Por muito tempo foi ditado pelas religiões que pecado traduz-se em conceitos culturais morais, pelos efeitos que tais atos causam nos sentidos estéticos sociais. Sendo assim tais valores morais são inconstantes posto que as sociedades mudam de pensamentos e de parâmetros morais de acordo com a sua época e seus interesses.

O pecado contra Cristo não é o cigarro, a bebida nem o riso; é a falta de reverência para com o próximo, posto que, neste, Deus escolheu fazer sua habitação. Pela fé digo isto, claro, pois não diria de outra forma. É só pelo fato de ter o Evangelho como Absoluto que posso dizer isso, de outra forma diria outra coisa, assim agiria também de outra forma para com tudo e todos. Tudo o que relativiza aquele amor com que Cristo amou a todos de fato é pecado. E todo aquele que se coloca como pecador para ser des-culpa-da-mente relativizado pelo pecado, está perdido, pois contra o amor a Deus e ao próximo, peca.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

EQUAÇÕES DO PRIMEIRO GRAU DE UM CANASTRÃO DO EVANGELHO

 

hipocrisia

Equações do 1 grau de um canastrão do Evangelho:
Evangelho + sacanagem = hipocrisia
Evangelho + desonestidade = hipocrisia
Evangelho + falta de reverência para com o próximo = hipocrisia
Evangelho + indiferença se o próximo vai se dar mal = hipocrisia
Evangelho + Evangelho pro outro e não para mim = hipocrisia
Evangelho + crítica ao dízimo por apego ao dinheiro = hipocrisia
Evangelho + relativizações por relativizações = hipocrisia
Evangelho + falar fala muito mais do que fazer = hipocrisia
Evangelho + fazer para serem vistos pelos homens = hipocrisia
Evangelho + assentar-se no trono do ego = hipocrisia
Evangelho + atar fardos pesados nas costas dos outros sem que quem ata não move nem um dedo para movê-los = hipocrisia
Evangelho + desejo de ser o centro dos holofotes = hipocrisia
Evangelho + decorar belos versos para se fazerem belos aos homens = hipocrisia
Evangelho + desejo de louvar a si mesmo procurando ser visto seja numa festa ou num templo = hipocrisia
Evangelho + pulsão por ser louvado pelo outro = hipocrisia
Evangelho + fazer discípulo segundo a si mesmo, recomendação do ego = hipocrisia
Evangelho + mais fixação no "ouro", seja no querer possuir ou no não querer doar = hipocrisia
Evangelho + a falta de justiça, de misericórdia, de fidelidade e de contribuição = hipocrisia
Evangelho + a promoção da imagem sendo que existe apenas morte por dentro = hipocrisia
Evangelho + aparência de justo, só aparência = hipocrisia
Evangelho + ter nos lábios o louvor àqueles que foram grandes profetas e discípulos porém não encarnar nada do que disseram = hipocrisia

“Serpentes! Raça de víboras!”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

UM OUTRO AMIGO



Meu amigo encontrou um outro amigo
Encontrou Deus
Desde então não para de contar recebidas bençãos
Ouço, pondero, ouço outra benção, uma atrás da outra

Deveria ficar alegre, mas entro para dentro de um quarto vazio e sem nada
A cada milagre, a cada palavra, tudo isso me fere, e não é Deus não é nada
É que meu amigo encontrou um outro amigo
Se tornou amigo das palavras

“Deus fez isso…Deus fez aquilo…Deus está fazendo aquilo outro…”
Ouço, pondero… Será que ele vai perceber? Parece que não
Cabisbaixo e com o olhar atento, sereno, respiração cadenciada e profunda
Permaneço ouvindo

E ele me recomenda, me instrui que o conheça também
Ouço, pondero, quase me desespero em quietude e calma
Será que ele vai perceber? Estou perdendo a alma…
Será que devo dizer? Não, meu amigo se tornou amigo das coisas eternas

Jamais ouviria um humano, aliás, o tempo todo estou falando
Mas ele não consegue me ouvir
É que meu amigo encontrou um outro amigo
Saiu daqui

“Recebi isso…recebi aquilo…”, mais uma vez ouço, me erro
Ateu, eu? Não, somente néscio. Perdido entre ventos e poeiras
Doído de um amor derramado, fracassado
Doído, suspirante, desistente, no fim, começo de uma nova…

Mas meu amigo encontrou um outro amigo
Desde então não consigo ouví-lo
Ele está cheio de Deus e vazio de si mesmo
Renunciou a vida e desapareceu

As vezes tento dizer palavras
Mas mais do que isso elas estão escritas em mim
Mas meu amigo encontrou um outro amigo
Desde então me acento sozinho quando me acento com ele

É que já disse, meu amigo encontrou outro amigo
Alguém aí me ouve? Me entende?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

SE O FOSSE...



Não sou poeta. E se o fosse seria um que não descobriu a alegria. Nem mesmo se aprofundou na angústia. Seria um poeta medíocre. Escreveria poemas sem sorriso no rosto, aliás, mesmo não sendo nunca escrevi algo com sorriso nos lábios. Mas seria o poeta da tristeza, da arte. Do poema interminável, da angústia real mas muito mais da fantasiada. Seria o poeta do desastre, da amargura e do rancor. Não! Não incentivaria a nenhuma dessas, mas seria esse o eu poeta, o poeta eu. Seria o poeta que entrou mas que pede a Deus para que lhe ensine a sair. Que nasceu e não sabe como morrer. Seria o poeta das pedras nas mãos, "quem não tem pecado atire a primeira". Atiraria-as todas sobre mim. Seria o poeta da desesperança, sofreria a doença de nãonenxergar um palmo à frente de seu nariz. Seria um poeta morto. Seria um poeta das palavras, não levaria a sério nenhuma delas. Teria as obras como chacotas, chacotas a mim mesmo. Seria apenas das palavras. Contudo, não seria poeta do ódio. Seria o poeta do amor, porém não da paixão. A paixão é jovem, sedutora, sorridente, mas também nervosa, incontrolável, não pacífica. Não seria apaixonado, mas amável. Seria o poeta da paciência, do sofrimento diante do detrimento sofrido por cada pessoa. Seria o poeta da paz, nem guerra nem brigas, "brigar para quê se é sem querer?". Seria poeta da mansidão, da calma, da confiança. Seria o poeta do domínio próprio, sem insultos para com o próximo, nem deferimentos torpes que humilhem um ser tão pequeno como eu mesmo, nada de irritações descontroladas, nem vontade de se livrar das excitações traumáticas desencadeadas por um outro. Seria o poeta da cura, confiaria apenas em Deus como fonte, como ponte que leva para longe de toda essa loucura… Seria esse poeta dos livros fracassados, das páginas esquecidas, do esquecimento de si mesmo nas mãos de quem nem sequer creram. Seria o poeta em direção da Cruz, da coroa de espinhos, das três negações, das trinta moedas de prata, da fuga mais descomedida. Seria esse poeta, inteiro e sem nada.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

SEM MUROS, SEM TETO

CORAÇÀO DE BANANEIRA

 

Debaixo desse bananal

Há várias igrejas em uma catedral

Catedral sem muros, sem teto

Igrejas que ladrões não roubam e nem as traças corroem

 

Debaixo desse bananal

A alegria é completa

No Nome que está sobre todo nome

Em quem qualquer lugar é lugar nenhum

E é lugar de culto ao Pai

 

Debaixo desse bananal

As folhagens se alegram pelos filhos de Deus

Essas igrejas ambulantes

Que são ao invés de terem

 

Debaixo desse bananal

Estão os templos que hora vem, hora vão

Não tem fixidez, e são vento

Soprando onde o Espírito quer

 

Debaixo desse bananal

Os anjos se acampam, os céus se alegram

Há júbilo, Graça e Paz!

Há culto sem endereço, sem placa, mas corações em joelhos

 

Debaixo desse bananal

Há um entra e sai

Só não há portas, nem entradas, nem saídas

Há a Vida, o Dom da Graça, O Príncipe da Paz

 

Debaixo desse bananal

Ninguém fica, ninguém se vai

Apenas encontra pastagens em outros lugares

Seja debaixo de uma pitangueira ou no meio de um milharal

 

Debaixo desse bananal

Não há bandeiras, nem tribos

Há apenas A Boa Nova

A Boa Obra: A Reconciliação

 

terça-feira, 3 de maio de 2011

ERA UMA VEZ… E PARA ONDE FORA?

adeus

Era uma vez uma noite calma. E confesso que as noites já eram calmas há muito tempo. Nenhum sinal de companhia próximo ao coração, nem um canto, nenhum barulhinho sequer, às vezes apenas o próprio suspiro.

Era noite, diria que foi um natal fora de época, também atemporal, nada de papais noéis, nada que coubesse dentro do tempo. Eram coisas da eternidade e não daqui. O reascender de uma esperança enchiam meus olhos de alegria, e também de lágrimas. Havia já um tempo que vinha aprendendo a rir mesmo tendo lágrimas nos olhos, algumas vezes faltava o sorriso.

Naquela noite conheci o espírito de uma criança, terno, acolhedor, leve… Eram coisas da eternidade de fato, o tempo passou a correr diferente, e de certo que nem sei se ele corria ou se ao menos existia naquele instante, o fato é que para mim pouco importava como pouco importou.

Era um espírito bom. Fiquei contente com tudo aquilo, de súbito as noites já não eram tão calmas próximo da alma. Havia uma festa sem euforia e uma estranha paz embora houvesse ainda o medo. Mas era melhor ir em frente do que ficar escondido por detrás daquelas antigas grades que tornavam tudo mais seguro, solitário e sombrio.

Ah! Brincamos muito, nos divertimos um bocado, nos tornamos de fato amigos! Era tempo de alegria, nada de choro, nem angústia. Era tempo de riso, de descanso, de leveza.

Um bom tempo se passou e sem entrar em detalhes do que aconteceu nesse meio tempo aquele espírito foi ficando adulto, um tanto grave, pensativo. Vi que não era mais aquele espírito um espírito de criança, tornara-se “grande”.

Mas permita-me voltar lá no começo. Esse espírito tinha bons olhos, nada via, nada enxergava. Não era cego, era que tinha bons olhos. Eu era um mendigo, pobre, cego e nu, mas esse espírito nada disso via, nada disso enxergava. Para ele eu era muito mais que isso. Talvez um milagre, ou então um presente de Deus, ou ainda um alguém de Verdade como nenhum outro o podia ser.

Ah! Verdade é que eu amava tudo aquilo. Me via nos olhos de pura Graça, pura alegria para aqueles olhos era me ver ali por perto. Eu é que não queria perder aquilo nunca, era a eternidade acalentando longos dias de suspiros ofegantes.

Então, aquele espírito se tornou adulto e ficou cego. Começou a ver e a enxergar. Agora, diante daqueles olhos, eu era aquele antigo mendigo, pobre, cego, e nu. Não mais me via nos olhos de pura Graça, aliás, Graça já não havia mais. Minha mendicância era olhada com altivez; minha pobreza com olhos de juízo; minha cegueira era motivo de chacotas que escapavam por meio da feição; minha nudez vista com desprezo e desgosto.

Ah! Para onde foi aquele espírito que encontrei naquela noite?

terça-feira, 22 de março de 2011

PERDI AS ESTRIBEIRAS

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Hoje perdi as estribeiras,

a calma,

a atitude serena

 

Fui logo me enchendo de mágoas

(se é que já não estava cheio delas),

estiquei as canelas, 

preparei o sapato, foi um bicudo no ato

num portão de lata, aparentemente fechado

provavelmente  trancado

 

Hoje perdi a singeleza,

ganhei a tristeza e um pé machucado.

Matei-me na raiva,

perdi a alma e ganhei uma dor.

 

Dessa vez não pôde ser apenas dor subjetiva,

aquela que as vezes se torna até tranquila

e de repente parece um viciozinho de querer doer.

 

A dor também foi no osso

devido o coração desse moço

não ter conseguido dizer a você:

 

Queria trazer-lhe ao presente

o presente de te dar o melhor de mim,

mas as vezes esse melhor custa dinheiro

e me sinto beirando o desespero envergonhado por inteiro

por ser vendido tão barato assim.

 

Tento disfarçar o desajeito,

é que sem graça desse jeito

é difícil dizer que a situação está ruim.

 

Você sorrindo exuberantemente,

inteiramente contente

e eu sem um tostão de dim-dim.

 

Se preciso for eu roubo numa farmácia,

numa padaria ou algo assim,

é que nunca fui malandro, não sei ser ladrão de banco,

na verdade pouco sei cuidar de mim.

 

Mas te daria tudo que pudesse

pra manter seu sorriso contínuo,

seu olhar sempiterno,

seu coração descansado em mim

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

QUERIDO DIÁRIO - uma sátira diabólica


Adoro ver gente do "Evangelho da Graça"! Sim, é muito interessante ver como pregam o Amor. Ah! As boas obras parecem boas mesmo. Gostam de ajudar o necessitado, ouvir com paciência o de coração estranhamente contrito, enfim. Mas é muito mais legal ver as atitudes com os cônjuges, com os pais, os filhos… Ah! Isso sim é divertido! É uma raiva e falta de paciência de causar aqueles risos de canto de boca. Ah! Que maravilhosa estupidez! Agora sim fica divertida a pregação! E deve ser para a diversão mesmo, só pode. Vai me dizer que estão falando sério!? Ah! Por Deus, eu seria mais sincero e menos cínico. E dizem que eu é que sou um Diabo. O raio que os parta!

Mas adoro! É melhor do que programa de TV, muito melhor. Detesto novelas, mas essas, do "Evangelho da Graça", eu amo. Divirto-me mais do que nos filmes de comêdia com o Leslie Nielsen. É ligeiramente curioso o "Amor do Pai". É como se Deus fosse cínico também, Ele perdoa tudo justamente para ver seus filhos pecarem mais, e ainda depois se ri disso tudo como naquelas frases populares "no dia seguinte a gente ri disso tudo". Imagino Deus com uma cerveja na mão, meio entorpecido pelo álcool, assentado à mesa, numa casa qualquer, junto aos "pecadores" (que no caso são os que se baseiam nesse "Evangelho da Graça" para serem "pecadores") rindo e conversando alto coisas do tipo "Ah! Eu vi aquela gata que tu pegou ontem, malandro! Ah! Eu te amo Joãozinho, como eu te amo! Depois de ontem, até passei a te adorar para falar a verdade!"

Melhor! E quando falam da transformação que esse tal "Evangelho" causa nas pessoas! Isso sim é curioso e divertido! Dizem um monte de coisas belas! "Amor, mansidão, domínio próprio, paz, alegria, bondade…". Ah! Comovo-me de fato com tais palavras. Chego até a chorar lágrimas de arrependimento. Ah! É lindo, meu Deus perdoa o seu querubim caído! Mas de repente… Oh! Bebedices, luxúria, inimizade…! Ah! Logo enxugo minhas lágrimas e começo a sorrir novamente! Por pouco meus pés não se desviaram e eu me converti. Mas me ficou um "Q" na mente, a pergunta inicial: Afinal, que transformação que causa esse tal "Evangelho" no ser humano? Ah! Que eu carregue esse povo! Ops! Que o diabo carregue esse pessoal. Deve ser uma piada, só para descontrair mesmo. Esse pessoal tem características cômicas, é bom me lembrar disso.

O mais legal ainda é a "carapuça" que serve em todo mundo. Ah! Essa é incrível! Todo mundo é pecador e humano, por isso a carapuça serve para todos. Só ainda não entendi o porquê que riem da carapuça e fazem um culto a ela. Talvez não estejam rindo dela, mas para ela. Ah! Vai saber! Quero mais é me divertir! Se for para a carapuça ser adorada, vamos todos juntos, afinal, eu também estou nessa! Mas o que oferecem para o deus ou a deusa "Carapuça" (até que podiam inventar um nome melhor para tal deus) é tragicômico. Oferecem os frutos da carne! Como sei? Ah! Os sei de cor na minha alma (se é que os seres humanos sabem o que é isso: alma), todos eles! Só não sei ser tão cínico! Deus não deveria ter sido tão cruel comigo, olha só para os Dele!? Ah! Mas não tem importância, eu os acho adoráveis, mesmo!

E quando falam sobre a entrada nos céus, confesso, aí já é demais. Devo eu falar a verdade para esse povo? Ops! Ah! Quase me cedi à tentação! "Deus pagou tudo" dizem eles! Não entendo bem! Deve ser que Ele pagou as condições para a festa: As bebidas, comidas… meretrizes! Tem hora que fico meio encabulado. Tudo bem que quis o Trono, mas se Ele tivesse me mostrado esse lado Dele e me desse uma festa dessas… Ah! O último lugar onde quereria estar seria o Trono. Brincadeirinha! Ainda prefiro o Trono, na verdade até daria duzentas mil festas dessas por ano só para me manter no Trono. Se for só isso que querem, posso dar esse reino aos humanos!

Dizem que meu nome significa "acusador"! Ah! Eu é que não acuso ninguém, na verdade, adoro todos esses!

Sem mais...

O Diabo

MEU AMIGO, ALGUMA COISA ESTÁ MUDANDO

Alguma coisa está mudando meu amigo E não sei bem o que é Mas se lembra quando tudo apenas se repetia Então mudanças já são boas...