terça-feira, 3 de maio de 2011

ERA UMA VEZ… E PARA ONDE FORA?

adeus

Era uma vez uma noite calma. E confesso que as noites já eram calmas há muito tempo. Nenhum sinal de companhia próximo ao coração, nem um canto, nenhum barulhinho sequer, às vezes apenas o próprio suspiro.

Era noite, diria que foi um natal fora de época, também atemporal, nada de papais noéis, nada que coubesse dentro do tempo. Eram coisas da eternidade e não daqui. O reascender de uma esperança enchiam meus olhos de alegria, e também de lágrimas. Havia já um tempo que vinha aprendendo a rir mesmo tendo lágrimas nos olhos, algumas vezes faltava o sorriso.

Naquela noite conheci o espírito de uma criança, terno, acolhedor, leve… Eram coisas da eternidade de fato, o tempo passou a correr diferente, e de certo que nem sei se ele corria ou se ao menos existia naquele instante, o fato é que para mim pouco importava como pouco importou.

Era um espírito bom. Fiquei contente com tudo aquilo, de súbito as noites já não eram tão calmas próximo da alma. Havia uma festa sem euforia e uma estranha paz embora houvesse ainda o medo. Mas era melhor ir em frente do que ficar escondido por detrás daquelas antigas grades que tornavam tudo mais seguro, solitário e sombrio.

Ah! Brincamos muito, nos divertimos um bocado, nos tornamos de fato amigos! Era tempo de alegria, nada de choro, nem angústia. Era tempo de riso, de descanso, de leveza.

Um bom tempo se passou e sem entrar em detalhes do que aconteceu nesse meio tempo aquele espírito foi ficando adulto, um tanto grave, pensativo. Vi que não era mais aquele espírito um espírito de criança, tornara-se “grande”.

Mas permita-me voltar lá no começo. Esse espírito tinha bons olhos, nada via, nada enxergava. Não era cego, era que tinha bons olhos. Eu era um mendigo, pobre, cego e nu, mas esse espírito nada disso via, nada disso enxergava. Para ele eu era muito mais que isso. Talvez um milagre, ou então um presente de Deus, ou ainda um alguém de Verdade como nenhum outro o podia ser.

Ah! Verdade é que eu amava tudo aquilo. Me via nos olhos de pura Graça, pura alegria para aqueles olhos era me ver ali por perto. Eu é que não queria perder aquilo nunca, era a eternidade acalentando longos dias de suspiros ofegantes.

Então, aquele espírito se tornou adulto e ficou cego. Começou a ver e a enxergar. Agora, diante daqueles olhos, eu era aquele antigo mendigo, pobre, cego, e nu. Não mais me via nos olhos de pura Graça, aliás, Graça já não havia mais. Minha mendicância era olhada com altivez; minha pobreza com olhos de juízo; minha cegueira era motivo de chacotas que escapavam por meio da feição; minha nudez vista com desprezo e desgosto.

Ah! Para onde foi aquele espírito que encontrei naquela noite?

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