sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

RELATIVIZADO PELO ABSOLUTO – um ensaio

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O ser humano é relativo? Isso é absoluto? Segue-se que, digo eu, o relativo só existe em consideração do absoluto, e uma vez que este é extinto o outro também deixa de existir. Assim não há tema sobre relatividade se não há a consideração de um absoluto, seja este qual absoluto for.

Entendo que todos são relativos por haver sempre absolutos, de modo que só há relatividade porque sempre haverão absolutos. Assim sendo, o que move o ser humano é aquilo que ele concebe ou posta para si mesmo como um ponto fixo - um absoluto - e a partir desse absoluto ele está relativizado, pois, viverá de acordo com o seu ponto absoluto pelo qual se entende a si mesmo, entende de onde veio e para onde vai. Assim alguns dirão “não há absolutos” e assim está posto o seu absoluto na não absolutização de coisa alguma, nisso se satisfará sua existência na relação consigo mesmo, com o outro e com as variegadas e multiformes facetas da vida: seja amizade, paternidade, trabalho, diversão. (Por fé digo apenas aquilo que move a existência básica de um ser humano, assim se pode crer que não haja absolutos e por qualquer coisa está relativizado, pelo nada em direção do nada, logo o paradoxo está colocado, pois pelo nada está relativizado, assim a relativização perde seu sentido tomando seu sentido no nada e para o nada. Ainda assim tal ser existe como relativizado diante de um absoluto. Assim o ser humano é relativizado pela fé que o move, sendo tal fé inconstante também será relativizado pela circunstância que o oprime).Tudo estará subjugado pela sua fé, crença, cosmovisão ou do que quer que chamem: eu chamarei tal de “ponto absoluto”. Da mesma forma um ateu que diz “não há Deus” viverá a partir desse ponto absoluto, e é esse ponto que o relativizará fazendo com que não viva senão de acordo com uma ausência de divindade, pois, como crê ou como entende, “não há Deus”.

A minha proposta aqui, nesse texto, será sempre caminhar o tema em torno do meu absoluto: Cristo. Como disse no parágrafo anterior, todo absoluto relativiza aquele que pelo absoluto de sua fé relativizou-se a si mesmo. Assim quando se diz “Amém” ao Evangelho por ele se está relativizado de modo que tudo o que Cristo disse que deveria ser será posto em prática por aquele que creu Nele. Não é um exercício racional, mas é um “Amém” movido pela fé. Todo aquele que de modo racional se subjuga à Cristo, sobre a dúvida se posta como indivíduo diante dele, pois a razão está sempre num diálogo duvidoso com a existência e com a fé. Assim Cristo será a mediação de todas as relações do indivíduo que nele creu com todas as outras coisas, pessoas e situações da vida. E a pergunta para tudo isso seria: como Cristo viveu isso? O que Cristo fez diante disso? E a resposta dessa pergunta será a resposta dada também pelo indivíduo à situação em que se encontrar. Tal indivíduo estará sempre relativizado pelo ponto máximo de sua fé, nesse caso, o que Cristo viveu.

Uma vez que creio no Evangelho e o tenho como ponto absoluto no qual toda a minha existência está subjugada por ele, relativizo-me exatamente no ponto onde estabeleço tal absoluto, pois, por ele (o evangelho) mediarei toda a minha forma de existir, de modo que serei por ele influenciado desde a maneira como me assento às refeições à maneira como trato o meu próximo. Ou seja, não será mais uma vivência a partir de outro ponto (por exemplo, o ego) mas será o Evangelho que estabelecerá o meu modo de existir na vida. É só assim que, em havendo alguém que me fira um lado da face, lhe dou a outra; só assim que, estando sobre a obrigação arbitrária daquele que me leva com ele a andar um milha, ando duas; é só assim que ao invés de levar meu próximo ao tribunal o perdoo. Isso tudo porque estou relativizado diante de tudo e de todos por tudo aquilo que Cristo disse que seria o que é para ser, e que pelo absoluto de si mesmo, relativizou-me.

Se por Cristo estou relativizado toda minha existência está relativizada, então posso chegar à máxima de que “não mais vivo eu, mas Cristo vive em mim”, de modo que não ajo senão segundo Cristo por Nele ter posto a minha “confiança”, “fé” de que ele é o Absoluto, e fora dele nada há. Quando digo “não mais vivo eu mas Cristo vive em mim” submeto todos os meus pensamentos, sentimentos, pulsões, desejos, vontades àquilo que ele diz “sim” ou mesmo diz “não”. E é só assim que poderei dizer: Cristo vive em mim. Pois já não estarei sob nenhum absoluto que não seja Cristo. Poderia ser a moral, a ética, o ateísmo, o Budismo, Hinduísmo, capitalismo, e por esses estaria relativizado e subjugado a ser conforme o mandamento de cada um desses pontos que podem também serem estabelecidos como pontos absolutos. Dizer que se pode ter mais de um absoluto seria dizer que se tem dois deuses, hora agradando a um e desagradando o outro, hora fazendo o contrário, nunca sendo possível seguir dois em sincronia harmônica, seria algo como “ânimo dobre”.

Porém, uma vez que posto o meu Absoluto por ele estou relativizado para o bem ou para o mal. De modo que quando posto um absoluto e enquanto na direção dele caminho, para o bem está posto, porém quando contra tal absoluto caminho, para o mal está posto. No caso do Evangelho, quando para o bem, a alegria, quando para o mal, o pecado. É como estabelecer uma lei que quando a favor dela tenho a vida, quando contra ela tenho a condenação. E alguém diria “Mas o Evangelho não me condena em nada”. Diria eu, pobre alma. Em tudo o Evangelho nos condena de outra forma Cristo seria dispensável, se Ele serviu como propiciação foi por condenar o mundo, todos nós. Então não nos condena mais porque já condenou o pecado na carne de Cristo? Não, estamos sendo condenados o tempo todo, assim diz a angústia e o desespero. Assim dizem as crises e as infindas transformações. Estamos sendo condenados o tempo todo, é por isso que estamos sendo salvos, caso contrário já não necessitaria dessa diária salvação. Assim quando posto um Absoluto, por ele estou condenado ao bem e ao mal. E aqui abre-se um precedente de que, para o interesse de cada um, para que o mal não seja mal e seja algo que pode-se relativizar em bem, cada qual nesse ponto deixará de ser relativizado pelo Evangelho e relativizará o Evangelho, uma inversão demoníaca. A doença é esperar experimentar o bem naquilo que o Evangelho diz que é mal.

Quem está relativizado pelo Absoluto, nesse caso, o Evangelho, por ele está subjugado e mediado nos âmbitos de toda a vida, de modo que não há como dizer “tenho certeza sobre Cristo, mas tenho dúvidas sobre a vida”. Toda a vida estará relativizada pelo Absoluto, uma vez que toda ação e atitude estará mediada por aquilo posto como ponto absoluto, ou seja, pela fé no Evangelho.

Mas é possível estar absolutamente relativizado pelo absoluto?

“Amém” seria a única palavra capaz de tornar isso possível, pois encerra nela um “sim” que subjuga toda e qualquer forma de existir fazendo com que diante de todas as circunstâncias da vida estejam submetidos ao Objeto mediador da fé, o Absoluto.

Uma vez tendo o Evangelho como absoluto, todo aquele que diante de uma situação de decisão se colocar ou for colocado tomará aquela mediada pelo próprio Evangelho, seguindo de modo absoluto aquilo que Cristo postou como aquilo que é para ser.

Então alguém pergunta: Como seria isso possível? E se eu duvidar que isso seja de fato a coisa certa a se fazer? Então dará provas que não se está relativizado pelo Evangelho, podendo até dizer “sim” para algumas coisas que nele há e que intermedeie as relações com o próximo e com a vida porém seu sustentáculo maior será sempre o da dúvida, e aquele que pratica o Evangelho em dúvida o pratica numa relação qualquer que não a fé.

Quem está relativizado pelo Evangelho jamais peca? De fato a resposta é “não”, porém aquele que peca tendo o Evangelho como seu absoluto, peca como quem de forma não-deliberada comete pecado. Assim peca, mas não peca como aquele que está perdido para uma relação absoluta com Cristo, ou seja, contra Cristo está absolutamente relativizado.

Abrindo um adendo aqui, exatamente nesse ponto: Pode ser que alguém que esteja relativizado pelo Evangelho não esteja absolutamente relativizado por ele, assim não se está absoluto no Evangelho mas de forma relativa está relativizado por ele, posto que está por ele e por outros pontos relativizado. Assim quem está em parte relativizado pelo Evangelho não o cumpre em sua absoluta obra, mas em forma relativa pois por ele não está relativizado absolutamente. Juntamente com ele (o evangelho) existem outros senhores, como explicaria melhor Romanos 7, quando diz que existe esse “’outro’ que habita em mim”.

Vale aqui uma pequena abertura de um outro assunto: Por muito tempo foi ditado pelas religiões que pecado traduz-se em conceitos culturais morais, pelos efeitos que tais atos causam nos sentidos estéticos sociais. Sendo assim tais valores morais são inconstantes posto que as sociedades mudam de pensamentos e de parâmetros morais de acordo com a sua época e seus interesses.

O pecado contra Cristo não é o cigarro, a bebida nem o riso; é a falta de reverência para com o próximo, posto que, neste, Deus escolheu fazer sua habitação. Pela fé digo isto, claro, pois não diria de outra forma. É só pelo fato de ter o Evangelho como Absoluto que posso dizer isso, de outra forma diria outra coisa, assim agiria também de outra forma para com tudo e todos. Tudo o que relativiza aquele amor com que Cristo amou a todos de fato é pecado. E todo aquele que se coloca como pecador para ser des-culpa-da-mente relativizado pelo pecado, está perdido, pois contra o amor a Deus e ao próximo, peca.

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