segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SE O GRÃO DE TRIGO NÃO MORRER



Por vezes, sinto perder a vida. Mas aí me encontro numa contradição, num paradoxo, ou ainda, num auto-engano. No engano de possuí-la. Então vejo-me na verdade ancorado no nada, na ingenuidade de tê-la em minhas mãos. É aí que me pego tomado por um sentimento falso, que não deveria existir, um sentimento auto-criado. O fato é que não a tenho (a vida), sendo assim não a perco.

Reflito sobre tal sentimento. Não há razão nele, não há paixão nele. Há apenas uma ingênua sensação. Como um menino que se sente o centro do universo, e sente seu universo como o centro de todos os outros.

Como o grão de trigo me desfaço, não sem dores. E o que perdera de fato? Perdera a prepotencia, a auto-suficiência, o egocentrismo. Perdera o que me fazia estar firme de mim mesmo. Abrira as portas para os raios do Sol da Justiça, para a Vida que há Nele, e só Nele.

Ai de mim se não morrer! Seria como um grão de trigo, solitário e egoísta. Perdido no meio da terra, sem raízes, nem ramos, nem folhagens, nem frutos. Não teria nada para me alegrar com o outros, não teria nada para compartilhar com alguém. Não teria vida em mim, e não poderia dar vida a nada nem ninguém.

Mas como disse, não se chega aí sem dor. Não é sem dor que se percebe que houve medo por um bom tempo de perder aquilo que não tinha. É como se me fosse dado um dever de defender um terreno, e nesse terreno o tesouro mais precioso de todos. E então, vindo os ladrões, me assaltam, e cavam, e procuram, e não há tesouro e não há nada além de um vigia e seu terreno vazio. Alarme falso.

Deixado desarmado e jogado ao chão, tento me recompor. Mas onde está o meu tesouro? Há apenas um silêncio ensurdecedor do lado de dentro. E tempo, e vazio, e mais tempos e mais vazios.

Leva um tempo para dizer, parafraseando o salmista, "o meu tesouro vem do Senhor que fez os céus e a terra". Leva uma era interior para dizer "Hosana". Muito se quer gritar "eu consigo", "eu posso", "eu". Mas vindo os ladrões tragos pelo sopro que é a vida, pelo tempo, pelo espaço, vindo o silêncio como resposta do coração diante a indagação feita, vindo o absurdo da debilidade do existir... Vem então esse "Hosana" como um canto em meio a dor. Esse canto que nasce como temor e tremor pela pequenez e efemeridade da vida. Então abri-se as portas para o Eterno. Hosana! Hosana! Hosana! Um ruidoso e inexprimível "Hosana".

Não possuo a vida. Não a encontrei de modo que a saiba explicar, ou mesmo de forma que a posso ensinar ou mesmo recomendar. Mas sinto uma estranheza enorme de que estou sendo encontrado por ela e levado por ela como árvore plantada junto a ribeiros. E me esforço para não ser distraído por outra coisa que não seja ela. E também não é sem dor tal esforço. Por vezes é necessário arar esse chão sozinho. Semeando com lágrimas, colhendo os feixes como os pés descalços e feridos.

Não sei o que é a vida. É ela que sabe quem eu sou. E mesmo assim Ela me chama o tempo todo a acentar-me à mesa, comer, beber de graça. Ah! Mas não é sem dor que vou dando os meus "Hosanas". Não é sem esforço que vou indo em direção dela à medida que ela me chama e se mostra como vida.

Não penso para mim que a vida seja algo fácil de se encontrar. Depois de tanto tempo concluo que ainda não a achei. Achei pelo menos o caminho contra ela, o caminho de pensar obtê-la.

Assim me desfaço de toda aquelas crendices que me foram dadas e que ingenuamente me atirei de cabeça. Acreditei como a criança acredita em cada fantasia.

Agora Ela me chama a ter um encontro com ela. Só tenho meus pés descalços e as mãos um tanto calejadas, um coração contrito e quebrantado, e também algumas lágrimas que sei que irei ainda derramar.

"Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto".

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