quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

QUE NÃO SEJA IMORTAL, NEM INFINITO, E NEM MESMO DURE

 

passarinho-engaiolado


Aquele amor que não quero que me ames

Amor de si mesmo

Amas a infelicidade do próximo

Amas com inveja

Desdém e desprezo há em teu amor

Ah! Esse amor de si mesmo

Amor que caminha de grade em grade

Desde que cante o pássaro feliz por tua prisão

Feliz por não vê-la, nem exergá-la em tuas mãos

Mãos que incitam servir

Contudo, o fato é que subtrais

Tomas, violentas, roubas a alegria

E o fazes com olhar piedoso

Com voz mansa e saudosa

Uma dissimulação forjada

A arte de um demônio

Hermético em sua transparência

Em seu riso, em sua bondade

Eis o teu demônio

Esse amor com que amas

Que nem mesmo se alegra com a alegria particular

Com a alegria que não é tua

A que é do outro

Nem mesmo podes alegrar

Acreditas mesmo que tu sabes, na verdade, o que é a alegria

O que é alegria para o teu próximo

São tuas grades, tuas correntes

Tua compaixão dissimulada

Escondes teu ódio e tua frustração

Escondes tua amargura, teu desespero

E projeta-os sobre o teu próximo

E cada um de teus desejos interrompidos

Tornam-se numa barra de ferro para o teu semelhante

E tens muitas delas, de sobra

Na verdade, que não se tornam

Mas tu, o artífice, transforma tuas misérias

Em aço bruto, em caverna em que moves a pedra para tapá-la

Queres manter dentro dela a irressurreição

Queres afogar a vida na escuridão

Contudo, não a tua, mas a do teu próximo

E chamas isso de amor

O teu amor

O teu amor particular

Dizes ser aquele modo que só tu aprendestes a amar

Aprendestes da vida, dos teus amigos, dos teus pais, do teu deus

Amor cruel, maldito

Amor de teu ventre, de teu próprio umbigo

Amor de teus intestinos

Fétido, pútrido, fecal

Ah! Esse teu amor que ama o que é mau

Que é teu bem, teu próprio bem

Bem de si mesmo e para si mesmo

Se teu próximo dança

Ridicularizas a música, não é a tua

O teu desafinado ranger de dentes

Se lê um poema para sua amada

Tu apagas as luzes

Se ele canta um outro amor

Sabe por esse outro não amada

Se ri de sua fantasia e inflige tua verdade

Tuas amarras, tua arbitrariedade

Teus fantasmas, teus medos

Teus pavores, tua desgraça

És tu dentro dessa gaiola

E sem sair dela procura a laços

Aqueles que queres arrastar para dentro do teu mundo

Pena!

É o máximo que se pode ter de ti

Pena!
Somente.

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